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Alimentar o mundo, esquecer a pele

há 5 dias
24 min de leitura

Chovia forte naquela terça. Não era uma chuva bonita. Era chuva que entra no casaco, esfria o joelho e faz a gente se sentir mais sozinha do que deveria, mesmo com alguém do lado.


Eu e Douglas estávamos sentados diante de uma mesa com um lençol branco amarrotado, duas panelas de sopa e uma caixa enorme de pães. O vapor subia e morria no ar. Completava o quadro um frio tão teimoso que nem os moradores se animavam a descer até ali. Embaixo do Minhocão o mundo ficava com um som errado: água batendo no concreto, um ônibus longe, o eco de quem atravessa a noite sem destino.


Meu nome é Vera. Quarenta e seis. Mãe de duas adolescentes. Casada com um motorista de coletivo. Moramos em Santa Cecília, perto do Memorial da América Latina. Todas as terças eu venho para a paróquia, visto a melhor versão de mim e finjo que servir sopa basta para manter uma mulher inteira.


Naquela noite a adesão foi baixa. Para cozinhar e carregar as coisas até o viaduto, gente até apareceu. Para ficar e servir, depois do assalto da semana passada, o pessoal torceu o nariz. Eu fiquei. Douglas ficou. Não por coragem de cartaz. Por um tipo parecido de teimosia.


Ele tem vinte. Motoboy de aplicativo. Mora sozinho num apartamento com vista para esse mesmo Minhocão. Alegre, gentil, daqueles que não medem esforço para ajudar. Perdeu os pais cedo e a vida o obrigou a crescer antes da hora. Isso em muita gente vira casca. Nele virou atenção. E atenção, para quem já se acostumou a ser útil e invisível, é um perigo doce.


Nossa, está frio mesmo — pensei, me abraçando, dando aqueles passinhos no mesmo lugar, como se o corpo pudesse inventar um quarto. Douglas puxava papo para o silêncio não sentar conosco na mesa. Perguntei sobre a vida dele. Do trabalho. Se alguém esperava em casa. Ele riu com o nariz vermelho, moletom já escurecido de água.


— Casa sou eu e a janela — disse. — Às vezes o rádio. Às vezes um baseado depois da última corrida, para a cabeça parar de calcular gorjeta. Bem normal.


Falou dos pais sem transformar isso em palco. Um acidente. Uma sequência de parentes que não deram conta. Um rapaz aprendendo a pagar conta, a costurar o próprio botão, a não pedir demais. Enquanto ele falava, eu olhava a mão dele em volta da caneca rachada: dedos marcados de freio, unha curta, um corte velho no polegar. Mão de quem carrega a cidade nas costas e ainda assim oferece moletom.


Eu falei da minha vida com o cuidado de quem não quer parecer ingrata. O marido, o turno, o ronco conhecido do outro lado da cama. As filhas, já grandes demais para colo e pequenas demais para eu largar o medo. Santa Cecília. O mercado. A lista da escola. A terça que me tira de casa e me devolve cheirando a osso e cebola.


Não falei que, de uns anos para cá, eu atravessava os dias como quem atravessa corredor: tudo no lugar, nada encostando de verdade. Não falei que o casamento tinha virado respeito e silêncio. Não falei que, quando Douglas ria, alguma coisa antiga no meu peito levantava a cabeça, assustada de ainda existir.


Um senhor veio. Pegou pão, sopa, agradeceu com a boca roxa de sereno e sumiu na cortina de água. Depois, ninguém. As panelas continuavam quentes por teimosia. O lençol branco parecia cada vez mais um pano esquecido.


— Acho que a noite morreu — disse Douglas, tampando uma panela.

— Morreu de frio — respondi.


Ele ficou olhando o viaduto como quem calcula risco de moto e risco de gente.


— Semana passada eu estava na outra ponta quando assaltaram o pessoal.


Cheguei quando já tinha passado. Fiquei com raiva de não ter estado. Bobagem, né? Como se eu pudesse tapar o mundo com o peito.


— Não é bobagem — falei. — É o seu jeito.


Ele me olhou de lado, sem sorriso pronto.


— E você? Por que ficou hoje? Podia ter ido embora com as outras.


A pergunta foi simples. Em mim, não.


— Porque se eu também for embora, essa mesa vira só mais um lugar que desistiu. E eu já desisto de coisas demais na minha semana.


A frase saiu mais verdadeira do que eu pretendia. Douglas não aproveitou. Só acenou, como quem guarda.

O frio apertou. Eu tremia de um jeito feio, dente quase batendo. Ele tirou o moletom sem anúncio e estendeu.


— Fica tranquila. Eu tenho a camiseta.

— Você vai congelar.

— Eu passo o dia no vento. Me congelo com estilo, hehehe.


Aceitei. O tecido veio quente do corpo dele, largo demais nos meus ombros, cheirando a sabonete barato, chuva e um resto doce de erva. Foi ridículo e bom. Pela primeira vez na noite, o tremor diminuiu. Não só pelo pano. Pelo gesto. Alguém tinha notado que eu estava com frio e feito alguma coisa a respeito, sem transformar isso em favor a ser cobrado.


Ficamos mais uns minutos, servindo o quase nada, conversando baixo. Ele contou de uma cliente que pede para deixar o lanche na portaria e sempre deixa um pedaço de bolo. Eu contei da filha mais nova, que finge que não precisa mais de mim, mas sempre pergunta para onde e com quem vou sair. Rimos. A risada no viaduto soou deslocada e, por isso mesmo, viva.


Quando ficou claro que ninguém mais viria, começamos a desmontar. Eu dobrei o lençol amarrotado. Ele amarrou a panela com elástico de entrega. Ao abaixar para pegar um pão que tinha rolado, nossos ombros se encostaram. Molhado no molhado. Calor humano no concreto. Eu poderia ter me afastado. Não me afastei na hora. Ele também não.


— Vera.


Meu nome, sem dona, sem senhora. Só o nome, dito como se coubesse na chuva.


— Quê.— Vamos deixar aqui tudo fechado, já que não vem ninguém. E eu te levo pra casa.

— Mas são quatro quadras daqui.

— Quatro quadras na chuva são uma viagem.


Subi na garupa porque fazia sentido. Também subi porque uma parte de mim já não queria atravessar sozinha o pedaço frio entre o viaduto e a porta do meu prédio. Capacete grande. Braços na cintura dele, com aquele recuo inicial de mulher casada — e depois o recuo cedendo, porque a moto pedia firmeza e o corpo pedia desculpa para chegar mais perto.


A avenida brilhava. O Memorial passou ao longe, molhado, solene. Santa Cecília dormia de luz amarela. Eu sentia o peito dele sob a camiseta úmida, a respiração regular, a vida inteira de um rapaz de vinte anos acontecendo a um palmo da minha aliança. Não era tesão escancarado. Era pior: era reconhecimento. A sensação perigosa de que, se eu falasse mais uma verdade, não ia conseguir recolher.


Na porta do prédio, ele desligou o motor e não se apressou. A chuva fazia uma cortina entre nós e a calçada.


— Obrigada pelo moletom — falei, já tirando, sentindo o frio voltar na hora.

— Fica com ele até semana que vem. Está mais seco em você do que em mim.


Sorri.


— Se eu chegar em casa com moletom de menino, vou ter que inventar uma história.

— Então inventa que a paróquia está inovando no uniforme.


Os olhos dele aguentaram os meus um segundo a mais do que o necessário. Não houve beijo. Não havia mão no joelho. Houve só aquele quase — o tipo de quase que esquenta mais do que contato, porque deixa a pessoa sozinha depois, no elevador, revivendo o que não aconteceu.


— Terça que vem — disse ele. — Se chover de novo, eu trago manta. E se o pessoal faltar de novo, a gente não desmonta a mesa tão cedo.

— Terça que vem eu venho — respondi. — Mesmo se não chover.


Ele acenou, ligou a moto, sumiu na água com as panelas na garupa como se ainda estivesse em serviço. Eu fiquei uns instantes sob a marquise, o cabelo pingando no colo, o cheiro dele ainda no pescoço.


Em casa, o uniforme do meu marido estava dobrado na cadeira. As meninas dormiam. Passei no corredor sem fazer barulho, pus o moletom na sacola da paróquia, como se aquilo fosse só mais um objeto de voluntariado. No banheiro, me olhei no espelho: rímel borrado, boca fechada, os olhos de alguém que tinha conversado demais e tocado de menos.


Deitei do lado do ronco conhecido e fiquei acordada ouvindo a chuva.

Não era culpa redonda. Também não era inocência.

Era o começo de uma terça que não cabia mais só em panela e pão — e eu, pela primeira vez em muito tempo, não tinha pressa de fingir que cabia.


Terça outra vez. Garoa miúda, daquelas que não encharca de uma vez: vai lambendo o concreto, o lençol, a nuca. Embaixo do Minhocão o ar vinha frio e sujo de cidade.


A Ilza tinha mandado recado cedo: feriado, vai estar fraco, não carregue o mundo. Levamos uma panela só. Uma. E a caixa de pão pela metade, como quem já aceita sobra.


Às sete e vinte a fila desmentiu a previsão.

Vieram demais, de uma vez. Homem com cobertor no ombro, mulher com copo próprio, um grupo que dormia dois pilares adiante. A sopa baixou num ritmo febril. Douglas servia rápido, sem perder a gentileza. Eu cortava pão, queimava o dedo, ria de nervoso. Em uma hora a panela deu fundo. Ficou o raspo, o cheiro, a culpa boba de ter acreditado no feriado.


— Acabou — ele disse, mostrando o fundo como quem pede desculpa para o viaduto.


Desmontamos cedo. Lençol dobrado, tampa, caixa vazia, o banco de plástico ainda molhado. O ponteiro nem chegava às nove. Eu olhei a avenida e senti o susto doméstico: casa deserta, luz acesa à toa, o pai em Marília, as meninas no ônibus da escola. Chegar agora era chegar cedo demais para uma mulher que não queria ouvir a geladeira.


Douglas amarrou a panela na moto e não ligou o motor.


— Café — falou, apontando com o queixo a térmica que a Ilza esquecia sempre no pilar. — Ainda está quente. A gente toma aqui. Daqui a pouco o trânsito piora.


A desculpa era ruim. Eu aceitei como quem aceita beira de abismo.

Sentamos no banco rachado, a garoa fazendo uma cortina entre nós e a rua. Duas tampas viradas de copo. O Minhocão passando caminhão por cima da conversa. Tudo arrumado aos pés, como se o voluntariado tivesse acabado e outra coisa, sem nome, tivesse começado.


Falamos de coisa rasa primeiro. Do padre. Do assalto antigo. De um morador que agradeceu três vezes o mesmo pão. Douglas ria baixo, soprando o copo. Eu segurava o calor com as duas mãos, a aliança batendo de leve na tampa.


— Há quanto tempo está casada?


A pergunta veio limpa, sem ponta. Mesmo assim, a aliança pareceu mais funda no dedo.


— Vinte e dois anos — falei. — Casei nova. Ele já andava de ônibus, eu já andava de lista. As meninas vieram. A casa veio. A terça da sopa veio. A gente foi empilhando coisa certa até ficar… assim.

— Assim como?


Sorri para o copo.


— Assim de quem já sabe o gosto do café antes de beber.


Douglas não completou. A garoa preenchia o vão. Um caminhão passou por cima e o viaduto tremeu no osso.


— Ele é bom — continuei, porque eu não ia começar uma conversa dessa sendo injusta. — Trabalha. Não some. Não grita. Quando a mãe adoece, ele vira filho na hora. Isso vale. Eu não gosto de gente que só conta o que falta.


Ele acenou, soprando outra vez o copo.


— E o que não falta?


Pensei no uniforme dobrado na cadeira. No beijo de testa. Na mão que chega no escuro sempre no mesmo lugar, confortável como chinelo, previsível como ponto final.


— Não falta comida na mesa. Não falta teto. Não falta o “você precisa de alguma coisa no mercado?”. Falta… o intervalo. Sabe? Aquele segundo em que a pessoa te olha e esquece o que ia dizer. Isso foi embora sem briga. Foi embora no automático.


Minha voz saiu estável. Eu fiz questão. Pidona, não. Só honesta até onde a honra não virava pedido.

Douglas girou o café.


— E vocês falam disso?

— Não. Falar vira cobrança. Ele já carrega o dia inteiro num corredor de ônibus.


Eu não vou chegar à noite exigindo que o homem ainda invente fogo. A gente se resolve. Cada um vira para o seu lado. No outro dia a máquina liga.

Ele olhou minha boca. Olhou o copo. Olhou de volta, educado.


— Você fala “se resolve” do mesmo jeito que fala da sopa.

— Talvez seja o mesmo verbo.


Rimos, baixo. O riso esquentou o banco rachado e morreu cedo. Eu cruzei as pernas. O tecido puxou. Ignorei. Ignorei também o latejo bobo que a própria conversa tinha acendido — aquele calor sem nome, escondido, que eu não ia entregar a um rapaz de vinte anos embaixo do viaduto.


Douglas via. Eu sentia ele ver. Os dedos dele parados demais na tampa. A mandíbula quieta. E mesmo assim nada: nenhum joelho avançando, nenhuma frase pronta para me salvar da minha própria vida.


— Vinte e dois anos é tempo — disse, só isso.

— É tempo. Dá para criar filha, dar nome em cartório, aprender o ronco do outro.


Dá para ficar boa em ser casada. O problema é quando a gente fica boa demais. Faz tudo certo e esfria no meio.

A garoa miúda lambeu meu pulso. Eu ajeitei o casaco, o movimento apertando o pano no peito sem eu autorizar. Continuei, mais baixo:


— Tem noite que eu deito e penso: está tudo no lugar. Então por que parece que eu estou numa sala de espera? Não é tristeza de novela. É morno. Automático. A gente se cumprimenta no corredor da própria casa.


Douglas deixou o copo no banco, entre nós, como fronteira.


— E hoje você ia chegar cedo nessa sala de espera.


Não perguntei como ele sabia. A casa vazia já tinha vazado no olhar, no feriado, na panela única, no fato de eu ainda estar sentada ali com o serviço morto aos pés.


— Hoje — falei — se eu descer agora, o elevador faz um barulho idiota. A geladeira fala alto. Eu ando de um quarto a outro como se alguém fosse responder.


Ninguém responde.

Calei. Não acrescentei fica comigo. Não acrescentei me olha daquele jeito. O que eu não dizia latejava na coxa, no lábio que eu umedeci demais, na aliança batendo outra vez na tampa.

Ele respirou pela boca, contido.


— A gente pode ficar mais um pouco.

— Pode.


Segunda hora. Terceira. A térmica está baixando. A conversa andando em círculo e, a cada volta, um pouco mais para dentro. Eu contei do domingo depois da missa, já discutindo o almoço na calçada. Contei do abraço dormindo, que eu deixo porque é seguro. Contei que segurança, depois de vinte e dois anos, às vezes pesa igual cobertor no verão. Tudo sem estender a mão. Tudo sem pedir que ele fosse o contrário do meu marido.


Douglas ouvia. Às vezes perguntava uma coisa pequena — se ele ainda ria das minhas histórias, se as meninas percebiam, se eu ainda gostava de café da manhã junto. Eu respondia. Cada resposta me deixava mais à mostra e, por isso mesmo, mais fechada na boca.


Quando o copo esfriou de vez, o Minhocão já tinha mudado o barulho. Menos ônibus. Mais água.


— Me leva? — perguntei. — Quer vir em casa?


O copo quase escorregou.

Não foi um convite ousado. Não veio com o sorriso de quem já ganhou. Veio baixo, inocente e limpo, do tamanho de uma porta se abrindo no meio da garoa. Me acertou no meio do peito, um susto quente, feio, de mulher casada que passou três horas falando de café e não de cama. Errada estava eu.


— Como é? — eu disse, rindo alto para disfarçar o pulso.


Douglas não repetiu na hora. Ajeitou a térmica. Olhou o pilar, depois a mim.


— Minha casa. Tomar um café que não está frio. Ou eu te deixo na sua, sem problema. Perguntei porque tive a impressão de não querer chegar cedo numa casa deserta.


A explicação era decente. O corpo não era.— Não se esqueça que sou casada, Douglas.— Sim, eu sei. Pensei em passar um café fresquinho até chegar a hora de te levar pra casa.Confesso que fiquei sem jeito e sem o que responder. O rapaz que é mais novo que meu tempo de casada, nem sequer demonstrou malícia, religioso e gentil, me oferecendo um abrigo bem melhor que debaixo do viaduto e pensando que ele estava tentando alguma coisa.


A vergonha veio quente. Não uma timidez santa — a outra, a de ter sujado um gesto limpo com a minha própria cabeça. Horas falando de um relacionamento sem entusiasmo e, na primeira porta que ele abre, eu coloco a cama. Errada, outra vez, estava eu.


Para não ficar mais estranha a situação, acabei aceitando para tentar fugir daquele constrangimento, não fazendo desfeita, mas sem passar do meu limite.


— Então um café… me desculpe. Imaginei demais


Douglas franziu a testa, sem entender delicado, e isso piorou.


— Imaginei o quê?

— Nada. Frio. Garoa. Mulher da minha idade pensa demais.


Douglas amarrou tudo na moto e deixou estacionado no meio do calçadão. Fomos andando apenas uma quadra e chegamos num prédio antigo e clássico do centro de São Paulo. reboco manchado, elevador lento. No corredor estreito, o cheiro de comida do vizinho. Ele abriu a porta sem cerimônia, como quem recebe gente da pastoral, não uma mulher casada.


— Entra. Tira o casaco se quiser. O chão está seco.


O apartamento era pequeno e alto. Janela para o Minhocão. Santo torto na parede da cozinha. Cama baixa no canto, coberta esticada, inocente demais para o que a minha cabeça tinha fabricado embaixo do viaduto. Eu fiquei no tapete.


Douglas foi direto para o fogão. Água. Pó. A cafeteira velha tossindo. De costas para mim, falava de coisa rasa outra vez — do padre, da panela que tinha dado fundo rápido demais, de amanhã ter que repor osso. Nenhuma frase torta. Nenhuma brincadeira de duplo sentido. O corpo dele, sob a camiseta molhada de garoa, era só um rapaz fazendo café.


Eu sentei na ponta da poltrona surrada, as mãos no colo, a aliança à mostra de propósito. O susto foi baixando. No lugar dele, ficou um incômodo mais fino: o de ser vista com bondade quando o que eu trazia por baixo da blusa não era bondade nenhuma.


— Você sempre traz gente aqui? — perguntei.

— Quase nunca. Às vezes o pessoal da igreja, quando a chuva pega a gente no meio. Minha avó mandava não deixar cristão na rua molhada.


Sorri, pequena.


— Sua avó ia gostar de saber que você trouxe uma casada.

— Minha avó ia mandar você sentar e comer pão.


Ele estendeu a xícara com as duas mãos, como se o copo pudesse derramar fé. Nossos dedos não se tocaram. Quase. Eu puxei rápido demais, e o café bailou na borda. Douglas não comentou.


Sentamos: ele na cadeira da cozinha, eu na poltrona, um espaço de sala inteira entre os joelhos. A janela embaçada. O viaduto embaixo, agora visto de cima, o mesmo lugar onde eu tinha imaginado o que ele não tinha oferecido.

O café estava fresco, forte, honesto.


Eu bebi em silêncio, o peito ainda quente do susto, e pensei — sem dizer — que o perigo maior não era a malícia dele.

Era a ausência dela.


Porque um homem que não tenta, deixa a mulher sozinha com o próprio desejo. E o meu, naquela terça, começava a ficar sem o viaduto para esconder.

A xícara esvaziou pela metade. O santo torto olhava a pia. Eu precisava de outro assunto — um que não fosse o meu casamento, o copo, o quase dos dedos.


— E você? — perguntei, num tom de pastoral, daqueles que a gente usa na cozinha da igreja para não parecer intrometida. — Tem alguém?


Douglas soprou o café, sem pressa.


— Alguém como?

— Namorada. Ficante. Essas palavras que o pessoal da sua idade usa.


Ele riu no nariz.


— Tem uma moça da livraria que às vezes chama para ir ao cinema. Tem uma corrida que vira conversa. Tem o aplicativo, que mistura tudo. Nada que preencha a semana.


A resposta era rasa. Em mim, não. Eu girei a xícara.


— Mas você é bonito. Gentil. Não some. Achei que já tivesse uma dessas filas na porta.

— Fila não. Às vezes uma pessoa. Depois a pessoa vê o quarto, o horário da moto, o jeito que eu paro na igreja terça, e esfria.


Olhei a cama baixa no canto, a coberta esticada, o capacete no gancho. Tentei imaginar uma moça da livraria sentada onde eu estava. A imagem veio e saiu rápido, deixando um gosto que eu recusei nomear.


— E você gosta de alguém agora?


A pergunta saiu limpa demais. Eu senti. Compensei com um gole.

Douglas demorou um segundo. Não olhou para a cama. Olhou a janela.


— Gosto de gente. Gosto de ficar. Não estou com ninguém.

— Isso não é resposta.


Ele sorriu, pequeno, sem malícia — e a falta de malícia outra vez me deixou exposta.


— É a que eu tenho.


Calei. A curiosidade, porém, não calou. Queria saber se ele beijava no escuro do cinema. Se dormia com a moça da livraria. Se alguém já tinha acordado naquela cama vendo o Minhocão. Se uma mulher da idade dele cabia naquele apartamento melhor do que eu, casada, com a aliança batendo na porcelana.


— A da livraria — falei, fingindo interesse de tia. — É sério?

— É cinema. Pipoca. Às vezes a mão. Ela fala de livro. Eu falo de rua. A gente se despede na calçada.

— Que educado.

— Que incompleto — corrigiu, sem drama.


O “incompleto” pairando entre a poltrona e a cadeira fez meu pescoço esquentar. Eu ajeitei o casaco.


— Você parece mais velho quando fala assim.

— Eu tive que ser. Não é o mesmo que ser.


Assenti. Conhecia o atalho. Queria, ainda assim, o detalhe que não me pertencia: se ele já tinha amado, se já tinha sido deixado, se já tinha esperado alguém como estava esperando o meu copo esvaziar.


— E na igreja? Ninguém te olha?


Douglas deu de ombros.


— Olham. Eu sirvo o suco. Dou bom dia. Não levo isso para casa.

— Você me trouxe aqui…Eu ri de nervosa para distrair o clima

— Eu trouxe uma voluntária que estava passando frio…quer outro café?


Eu agradeci e recusei. Acho que estava perdendo o controle e disse se poderia me levar para casa. Ele assentiu na hora. Pegou o capacete. A velocidade com que as chaves saíram do gancho me deu uma ideia feia: talvez ele também quisesse que eu fosse embora. Talvez eu tenha falado demais. Talvez a casada na poltrona tivesse pesado no apartamento pequeno.


— Claro — disse, já na porta. — Antes que a garoa volte.


Fiquei sem jeito. Aliviei. Doeu. Os dois ao mesmo tempo.

Atravessei a sala curta atrás dele, o santo torto na parede, a cama baixa no canto como uma frase que a gente não tinha lido. 


No corredor interno o espaço afunilou. Douglas enfiou a chave. Girou.

A chave travou.


Um estalo seco. O corpo dele parou no batente. Eu vinha no ímpeto da saída e não deu tempo de frear.

Encostei inteira.


Os seios fartos amassaram na camiseta úmida. A barriga achou o jeans. O queixo raspou a omoplata. Café, sabonete, chuva. Um segundo de degrau errado.


— Desculpa — saiu rouco.

— A fechadura é ruim — ele respondeu, também rouco, e a voz não era de fechadura.


Os braços fecharam a cintura dele sem licença. As palmas abriram no tronco magro: peito, coração rápido demais, barriga quente, o pêlo curto acima do cinto. Douglas travou. Não recuou. Não avançou. Só endureceu. As omoplatas marcaram meus seios.


— Vera.

As mãos leram o caminho outra vez. O quadril achou o jeans. Um som pequeno, envergonhado, escapou de mim.

Ele cobriu minha mão. Para parar. Virou-se. Peito contra peito. Olhou a culpa nos meus olhos e pôs as duas mãos no meu rosto.


— Você quer mesmo?


A lágrima veio sem discurso. Marília. As meninas. A mulher da sopa. Ele aproximou a boca da orelha.


— Eu sei o que é. A lacuna. E o medo de jogar a casa para o alto. Se for só a pele, eu fecho a porta e guardo. Se for o resto, eu te levo agora. Eu não vou ser o atalho que você acorda odiando.


A terceira frase — a prática, a cômoda — veio no peito dele, baixa:


— Ou a gente se usa hoje e vida que segue.


Eu sorri molhada.


— Que safadinho. Primeiro o sermão. Depois o quarto sem fatura. Os dois gozam.

Amanhã a aliança é só minha.


Ele corou. Não desviou.


— Eu não queria parecer só o menino que quer te possuir.

— Você também é isso. Não tem problema ter vinte anos. Tem problema me deixar sozinha com a conta. Se for furar o limite, assume junto.


Os olhos dele acenderam. A voz veio firme, ofegante, sem porta extra:


— Eu te quero. Quero te comer. Quero te prensar nesta parede. E a culpa também é minha. O silêncio também. O depois, se vier, eu não finjo que foi só você.

Encostei na parede.


— Quem sabe um beijo…e depois me leva pra casa.


Me encostei na parede e ele veio com tudo


Me prendeu ali com o corpo inteiro, as duas mãos no meu rosto, e a boca chegou feroz e labial — sem acidente, sem fechadura, sem desvio. Só a escolha. Lábios se abrindo de uma vez, língua quente, um som úmido que o corredor inteiro teria ouvido se houvesse alguém. Eu gemi dentro da boca dele, as mãos na camiseta, no cabelo, na nuca, puxando como se pudesse enfiar o rapaz no meio da minha culpa e ainda assim ficar de pé.


Douglas beijava com fome e com cuidado no mesmo gesto: a ferocidade na língua, o polegar no meu maxilar, firme, me obrigando a olhar quando afastamos um segundo para respirar. O quadril achou o meu. O jeans duro prensou exatamente onde a conversa tinha latejando por três horas. Eu abri um pouco as pernas, um movimento mínimo, vergonhoso, e ele entrou no vão com a coxa, me erguendo contra a parede até os seios fartos amassarem no peito magro.


— Assim? — ofegou na minha boca.

— Assim — eu disse, e voltei a beijar primeiro.


Era beijo de quem já tinha falado demais. Sal de lágrima antiga, gosto de café, a respiração dele batendo na minha. A cada vez que a língua se aprofundava, o corpo pedia a cama; a cada vez que as mãos dele desciam da minha cara para a cintura, ele parava no osso do quadril — fiel, ainda, ao que eu não tinha autorizado por completo. Eu é que puxei uma das mãos para cima, para o peito, por cima da blusa. Ele gemeu, grave, a palma cobrindo o volume, o dedo achando o mamilo duro por cima do sutiã, e a testa bateu na parede ao lado da minha cabeça.


— Vera…


Meu nome saiu partido. Não era sermão. Era aviso de que o menino estava no limite.

Apertei as coxas na perna dele. O atrito veio curto, gostoso, proibido. Um tremor subiu, cedo demais, e eu ri na boca dele — um riso úmido de mulher que se reconhece fácil demais depois de vinte e dois anos de automático.


Ele sentiu. Apertou mais o rosto entre as mãos e beijou mais fundo, como se pudesse beber o tremor. Não desceu o zíper. Não pediu a cama. Comeu a minha boca como tinha prometido comer o resto — e deixou a conta no ar, quente, compartilhada, os dois pecando na mesma parede.

Quando afastamos, um fio de saliva ainda ligava as bocas. Os olhos dele, bem perto. Os meus, sem lugar para esconder.


— Agora só tem uma última coisa.


Douglas respirou contra meu lábio, o membro dele marcado no jeans, as mãos ainda no meu rosto, como se soltar fosse outra queda.


— O que é?

— Vai ter que descobrir sozinho. Agora, me leva pra casa


A frase saiu mais firme do que o joelho. Ele ficou olhando um segundo a mais — boca inchada, tesão óbvio, a conta que tinha acabado de assinar no ar. Depois baixou as mãos. Pegou o capacete com um estalo seco.

Estava visivelmente emburrado.


Não fez cena. Não implorou a cama. Só endureceu o queixo, girou a chave de uma vez e desceu na frente, dois degraus mais rápido do que eu. No elevador, o palmo entre nós voltou a ser palmo. O reflexo no metal mostrava o que a parede tinha feito: meu rímel, a boca dele, os dois ainda ligados por um fio que eu acabara de cortar com a mão.


Na garupa eu encostei um pouco. Ele acelerou demais na primeira reta, depois corrigiu, como quem se pega sendo menino. Santa Cecília passava molhada. Nenhum dos dois falou do beijo, da parede, do “quero te comer”. O silêncio ia emburrado e quente.


Na marquise do meu prédio, desligou o motor e não tirou o capacete.

Eu desci. Ajeitei o casaco. O corpo ainda latejava no lugar em que o jeans dele tinha marcado.


— Obrigada a carona.


Ele acenou, curto, os olhos escuros atrás da viseira.

Eu também só acenei.


Virei. Atravessei a portaria vazia — feriado, cadeira da Zeladora sem ninguém, vaso de espada-de-são-jorge, o espelho me devolvendo uma mulher beijada demais para quem só ia subir. O elevador subiu sozinho com o meu pulso. Lá embaixo, só depois da porta de vidro fechar, ouvi a moto partir. Partiu brava.


A casa deserta cheirava a pão amanhecido e luz acesa à toa. Pousei a sacola. Passei a língua nos lábios: ainda estava a boca dele. No banheiro, a blusa marcada, o sutiã torto, as coxas úmidas de um jeito que o jeans não cobria bem. Lavei o rosto. Não lavei a boca.


Me sentei na cama quando brilha o celular no silencioso.


Era o Rogério.


— Oi, querido. Como está a sua mãe? Ela tá bem?

— Oi Vera. Pois é. A pneumonia tá brava aqui. Acho que volto só na quinta. Já avisei a firma. Como estão as coisas aí? Tudo em ordem? Tá chovendo?

— Por aqui, tudo em ordem, meu bem. As meninas só voltam amanhã à tarde. Tome cuidado na volta. Deve estar bem congestionado.


E desliguei. 


Deitei vestida, de lado, no lugar frio da cama de casal. A luz do corredor vazava por baixo da porta. Fechei os olhos e a boca dele voltou primeiro — feroz, labial, as mãos no meu rosto. Depois a coxa entre as minhas. Depois a palma no peito, por cima da blusa. Imaginei as mãos magras, de freio e corte no polegar, alçando a barriga, o quadril, o avesso da coxa. Imaginei ele me alisando sem pressa de menino, me acariciando como quem ainda ouve o “não hoje” e mesmo assim não desiste do mapa.


O corpo respondeu sozinho. Um calor baixo, úmido, as pernas se apertando no lençol. Não desci a mão. Tinha descido demais naquela porta. Deixei só a cabeça fazer o que a boca tinha recusado: o beijo, o peso, o meu nome dito contra o lábio.


No dia seguinte a casa amanheceu clara demais. Sem chuva para suavizar. Feriado nua.


Passei o café no automático — água, pó, o cheiro que em vinte e dois anos já não pede atenção. Fui ao banheiro. Sentei, ainda com o gosto da noite na boca, a bexiga aliviando, a cabeça atrasada no que o corpo já lembrava: parede, jeans, o aceno na portaria.


A campainha tocou.


Um toque só, curto, de quem não quer acordar o prédio.

Dei a descarga no susto, lavei a mão pela metade, corri pelo corredor descalça, de regata branca folgada e calça moletom, o cabelo de quem dormiu vestida. Olhei o visor.


Douglas.


Capacete na mão. Camiseta lisa. A cara de quem não dormiu o bastante e mesmo assim veio. Emburrado já não estava. Estava pior: resolvido.Mal abri e ele entrou. Fechou a porta sem olhar para trás. O estalo do fecho correu a casa deserta. Não houve café, não houve “manda eu ir embora”. Houve o capacete caindo na cadeira e as mãos dele na minha cintura, me erguendo com uma fome que a parede da véspera tinha deixado pela metade.


A mesa da cozinha recebeu as minhas nádegas. O tampo frio. A toalha de plástico floral, a mesma do leite das meninas. Ele puxou a calça de moletom junto com a calcinha num gesto só, até os tornozelos, e abriu as minhas pernas com as palmas quentes na coxa. O ar da manhã bateu no sexo úmido — um constrangimento nítido, cru, à luz da pia.


— Douglas — Não deu tempo. Ele grudou a boca como ventosa.

— Meu Deus, Douglas!


O constrangimento veio primeiro, quente, horrível. Tinha acabado de fazer xixi. A pele ainda úmida do banheiro, o cheiro íntimo da manhã, o tampo frio na bunda. Quis fechar as coxas. Quis sumir. Quis dizer que não era hora, que não estava limpa, que aquela boca não devia.


Enquanto os meus dedos estavam nos cabelos dele relutando em afastar a cabeça dele, sentia a sua língua larga e áspera passando por cima do volume do meu clitóris, o som da sucção molhado e obsceno, sentia a sua fome que aquela cozinha nunca produziu


Tentava em vão argumentar — “...Douglas…..ah…..ah…..eu tinha acabado de fazer xixi….” e parece que gostou de ouvir e comecei a sentir a pressão dos seus lábios e dentes.


A minha luta estava sendo vencida e eu abrindo mais as pernas como se pedisse mais. Minha voz embora baixinha para os vizinhos não escutarem, mudava do protesto para gemidos baixos e sensuais, feio, com a bunda encostada onde as minhas filhas tomam os seus achocolatados e biscoitos.


Então ele se levanta com o queixo todo ensopado com o meu suco, ele abre a calça jeans dele libertando o seu membro não tão grande, mas grosso e cabeçudo, uma fruta do conde brilhante e suculenta do pré-gozo com uma gota na ponta mirando para a minha entrada


Meu Deus, ele vai entrar em mim. Ele todo ofegante rasgando a embalagem da camisinha e o cobrindo de forma sensual, se acariciando, encaixou a cabeça em mim.


— Descobri

— Entra em mim, Douglas. Devagar. E não me tira os olhos.


Ele empurrou.


A cabeça gorda abriu primeiro, um ardor bom, grosso, esfregando por toda a minha parede. Eu soltei o ar. As unhas na borda da mesa. E ficou toda enterrada dentro de mim, sentindo os seus pêlos pubianos no meu bumbum roçando a minha outra saída.


— Meu Deus, Douglas. — eu disse outra vez, agora para outro lugar.


Douglas não pregou. Moveu-se curto, pesado, a mesa cedendo milímetro a milímetro em direção à parede. O pau cabeçudo saía brilhante e voltava fundo, grosso, raspando cada ponto que a língua tinha deixado acordado. O som era úmido, claro, indecente à luz da pia. Ele me olhava o tempo inteiro.


No aparador, o porta-retrato. A família. Eu, de pernas abertas, sendo comida por outro homem. A culpa não apagou o prazer. Passou óleo nele. Fez cada estocada mais nítida.


Ele acelerou. Fortes. Pausadas. O osso dele batendo no meu clitóris por fora enquanto a cabeça gorda empurrava por dentro. Perdi o remorso no meio de um gemido que eu não consegui engolir. A barriga puxou, fundo, como um fio puxado do útero. As coxas tremeram no quadril dele. O ventre fechou em volta do membro, faminto, as nádegas duras, a coluna em arco sobre a toalha floral.


Quente. Lenta. Inevitável. O sexo apertou ele em pulsos, um atrás do outro, e eu gozei aberta, a boca contra o ombro dele, um gemido longo, molhado, o corpo inteiro escorrendo para aquele ponto. No mesmo fôlego Douglas urrou baixo, enterrou até os pelos roçarem a minha outra entrada e desabou em cima de mim. O suor dele pingou entre os meus seios.


O peito magro amassou os meus. Por dentro a camisinha recebeu o leite dele — grosso, quente, pulso após pulso — e, quando o quadril recuou um instante, um fio branco escapou, escorreu em mim, na coxa, na toalha do café da manhã.

Ficamos assim. Só o coração. A cafeteira. O andar alheio.


Ele beijou o pescoço com uma lentidão que a fome de antes não tinha. Eu beijei a orelha, o gosto de sal. Depois a boca veio — intensa, funda, língua ainda tremendo, um beijo de quem já gozou e mesmo assim não quer soltar a pele.

Saiu com cuidado.


A camisinha brilhou entre nós, cheia, um filete ainda ligando o corpo dele ao meu. O ar da cozinha tocou o sexo aberto, sensível, latejando. Ele deu o nó na pia. Eu desci da mesa com as pernas moles, o moletom subindo pelas coxas úmidas, a calcinha torta, o mel e o resto dele escorrendo quente até quase o joelho.


Passamos o pano na toalha. O plástico floral voltou a ser só plástico. Quase.

O café foi em pé, rápido, amargo. Ele bebeu olhando minha boca. Eu sentia o latejo cada vez que a xícara pesava na mão. Na porta, um beijo curto, o polegar no meu queixo, e o capacete.


À tarde as meninas chegaram com as malas e fome. Fiz macarronada depressa, a água fervendo alto demais, o molho simples, o queijo caindo. Elas falavam do ônibus, da cama estranha, da professora. Eu servia. Sorria. Acenava.

E não conseguia tirar os olhos da mesa.


Horas antes eu estava sentada nesta mesa com as pernas bem abertas, meu sexo exposto, vermelho, reluzente da boca dele — Douglas metendo forte em mim e o meu mel escorrendo, grosso, e o leite dele que escapou da camisinha, quente, branco, misturado ao meu, se derramando devagar no lençol florido.

Passei o guardanapo nos lábios.


O gosto que veio não era de macarrão.


Era de manhã. Suor. A boca dele. O resto de um gozo que a casa agora disfarçava com almoço e conversa de viagem — e que, por baixo da mesa, ainda latejava em mim, úmido, secreto, cada vez que eu cruzava as pernas.



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MINAHO MIZUKI

Escritora de contos eróticos baseados em histórias reais.

Sou Minaho Mizuki, uma contadora de desejos proibidos e experiências que muitos vivem, mas poucos têm coragem de compartilhar.

Escrevo contos eróticos inspirados em relatos reais — traições, reconquistas, descobertas sexuais, ciúmes, swing, fetishes, e todas as nuances complexas do desejo humano. Cada história carrega a essência verdadeira de experiências vividas, transformadas em narrativa para que você possa mergulhar, sentir e, quem sabe, se reconhecer.

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